segunda-feira, 21 de junho de 2010

NO DORSO INSTÁVEL DE UM TIGRE, por Fernanda Torres


O pânico de ser atriz vem da autoconsciência, do julgamento de si mesmo, da expectativa e de qualquer ruído que lembre o quão inútil é a profissão

Em fevereiro de 1995, pouco depois da estréia da peça Cell Mates, em que fazia um dos papéis principais, o ator inglês Stephen Fry acordou, foi para a garagem, ligou o carro e tentou se matar. Aí pensou na mãe, ficou com pena dela e decidiu fugir. Pegou o carro e, de fininho, foi parar na Alemanha. Passou meses desaparecido. A peça saiu de cartaz. Fry também - segundo o próprio, para sempre. Mas voltou ao cinema, tendo feito o papel-título em Wilde. A razão de largar o teatro? Aquilo que, em inglês, se chama stagefright.


Não existe uma boa tradução de stagefright para o português. "Pânico de palco" deixa a desejar. "Pânico da platéia", idem. Talvez a melhor tradução seja "pânico de cena", ou "medo da cena". Afinal, não é propriamente do palco que o ator tem pavor, nem da platéia. É do todo: pavor de perder o próprio sentido da profissão. Qualquer ator se pergunta antes de entrar em cena: "Mas, afinal, por que fui inventar isso pra mim? Por que não sou engenheiro ou médico? Que sentido há em fingir que sou outro?".


Num dos seus monólogos, Hamlet faz a mesma pergunta:


Não é monstruoso que esse ator aí,

Por uma fábula, uma paixão fingida,

Possa forçar a alma a sentir o que ele quer,

De tal forma que seu rosto empalidece,

Tem lágrimas nos olhos, angústia no [semblante,

A voz trêmula, e toda a sua aparência

Se ajusta ao que ele pretende?

E tudo isso por nada! Por Hécuba!

O que é Hécuba pra ele, ou ele pra Hécuba,

Pra que chore assim por ela.


Pânico de cena seria um estado patológico no qual o ator, em bom português, trava com as quatro patas, empaca, amarela. No estrangeiro, os casos são inúmeros, graves e renomados. Laurence Olivier se livrava da pressão de ter que ser Olivier xingando o público na coxia, antes de começar o espetáculo. Depois que passou dos sessenta, o pavor era tamanho que ele pensou em desistir da profissão.


Não conheço, no Brasil, caso de ator que tenha sofrido desse mal a ponto de abandonar a profissão, muito menos de alguém que tenha pensado em se matar. Acredito que isso se explica pelo fato do tão temido pânico de cena só acontecer, de verdade, em praças onde o teatro é levado a sério.


Aqui, há mais de vinte anos, os Cassetas lançaram com retumbante sucesso o inesquecível slogan: Vá ao teatro mas não me chame. O ambiente no Brasil é meio hostil a classe teatral. Pior: é indiferente. Além disso, 3 mil reais por mês, um carro na garagem, uma TV, fogão e geladeira representa o topo da cadeia alimentar de mais de 95% da população brasileira. Falar em sofrimento do artista, numa realidade dessas, dá até vergonha.


Marco Nanini define bem a questão: "O Olivier tem stagefright porque o Olivier pode. Eu também adoraria ter stagefright. Mas se eu começar a dar piti antes de entrar em cena, o público simplesmente desaparece". Nanini é desses atores que correm atrás de um personagem como o jogador do Nelson Rodrigues corria atrás da bola: como se fosse um prato de comida. É um caso clássico de ator brasileiro que é empresário de si mesmo. Não tem como chamar o produtor para dizer que não vai dar espetáculo. Ele é seu próprio patrão.


Nanini conta que, certa vez, sentiu algo semelhante a uma síndrome do pânico, "mas era porque tinha que entrar num aparelho de ressonância magnética". Ele costuma suar frio quando tem de dizer a fala de um comercial nos 23 segundos exigidos. Apresentações de improviso, festas, prêmios e recepções também lhe provocam uma grande ansiedade. Mas no palco, sobretudo no teatro, onde se ensaia e sempre existe o dia seguinte, Nanini diz que se sente em paz. Encara os momentos mais difíceis, as piores platéias, as peças ruins e os eventuais deslizes como parte da profissão. Segundo Nanini, existe uma diferença entre o temor que faz parte das dificuldades naturais do ofício, e aquele outro, anormal, do curto-circuito em cena. O primeiro ele sempre sentiu. O segundo jamais o ameaçou.


Gosto da observação do Nanini. Até que ponto o medo de estar em cena pode ser considerado uma patologia? Tenho certa implicância com essas nomenclaturas, com a classificação da angústia. Cada vez que inventam um novo nome para um desvio de comportamento, suspeito que algum laboratório na Suíça está ganhando muito dinheiro às custas da neurose alheia. Encarar o pânico de cena como uma doença não ajuda em nada a vida do ator. O medo de estar em cena é o motor primordial da profissão. Controlá-lo é a arte do negócio.


Uma vez, o Pedro Cardoso me contou, como se fosse um segredo importante - e é -, que foi o diretor Amir Haddad quem lhe ensinou a ficar calmo, a relaxar sem perder a loucura, essencial quando se tem de fingir ser quem não se é. Ayrton Senna afirmou ter visto Deus enquanto dirigia seu bólido a 300 quilômetros por hora - Deus, através do Ayrton, desenhava linhas perfeitas nas curvas fechadas da pista de Mônaco. Com o ator não é diferente. Você fica em estado de graça quando pára de fazer esforço, quando perde a consciência de que está atuando.


Não se ouve falar de pânico de cena em relação a quem está começando a carreira. Na juventude, o ator já é alguém em permanente estado de pânico. Não conheço nenhum ator jovem que seja calmo. Confunde-se nervosismo com vigor, mergulha-se de cabeça em qualquer psicodrama, o diretor tirano encontra em você um prato cheio para exercitar o sadismo. É comum fazer teatro gutural, raivoso, aos gritos. Eu gostava de teatro físico: se não saísse de cena pingando suor, aquilo para mim não era teatro.


Sérgio Britto conta que recentemente, numa peça de vanguarda dirigida por uma jovem diretora, todos os exercícios do ensaio buscavam a tensão. Começava- se tensionando os dedinhos do pé, depois subia-se pelo corpo até o cocoruto da cabeça. Sérgio percebeu que a tensão era tanta que, a certa altura, já não era possível compreender o que os colegas diziam. Decidiu conversar com a diretora. Ela respondeu: "Não tem problema, o importante é que eles estejam tensos". Dificilmente você sofrerá do maldito pânico se estiver exorcizando sua tensão no palco. Acredito que esse medo só ataca atores mais experientes, gente que, depois de ter encontrado, acaba perdendo o sentido de estar em cena.


Talvez o primeiro e único ator brasileiro que sofreu a ponto de ter autoridade para dizer de boca cheia "Eu senti stagefright!" tenha sido o Sérgio Cardoso. Aconteceu nos anos 40, na temporada de Hamlet no Teatro Fênix do Rio de Janeiro. Naquelas priscas eras, teatro era coisa séria.


Sérgio Cardoso fazia parte do Teatro do Estudante, grupo criado por Paschoal Carlos Magno para "qualquer pessoa que quisesse estudar teatro e tivesse menos de 30 anos". Ao terminar de se maquiar, ainda no camarim, nervoso, pronto para entrar em cena, Sérgio Cardoso chama a produção. Diz que não haverá espetáculo e pede que devolvam o dinheiro dos ingressos. Explica que não sabe fazer o papel, não sabe, não sabe... Sérgio Britto, como o fiel Horácio, toma a frente e diz que, nesse caso, será obrigado a ligar para o pai do Sérgio Cardoso, seu Francisco - seu Francisco era muito rígido -, e contar o fricote do filho. Funcionou. Hamlet baixou rapidinho.


Sérgio Cardoso exercia sua profissão no limiar da sanidade. Enfrentava Hamlet com tamanha fúria que não eram raros os dias com algum acidente em cena. Ele quase levou a mão de Sérgio Britto num juramento de espadas, e fez a peruca dele voar longe numa cena de ódio ao padrasto (no meio da temporada, Britto trocou o papel de Horácio pelo do rei Cláudio). A peruca desceu sozinha escada abaixo, enquanto a platéia ria. Sérgio sacudia tão furiosamente a mãe, Gertrudes, que os peitos da atriz saltavam para fora do decote medieval. Como sua pressão arterial variava junto com o batimento cardíaco, era comum ele desmaiar depois das apresentações. Tinha sopro no coração. Morreu aos 47 anos, provavelmente vítima da própria profissão. Sérgio Cardoso foi o mais próximo de Laurence Olivier que conseguimos chegar.


E aí vieram os anos 60. Período de glória do teatro experimental. Numa peça, depois de o autor assistir a inúmeros e exaustivos ensaios de improvisação, para que o texto surgisse do coletivo - aquela mistura de Marx com Grotowsky (o teórico polonês) -, o autor virou para o grupo e declarou que o texto dele ia ser o não-texto. Aí o diretor chegou e disse que a direção também ia ser a não-direção. E aí os atores decidiram, em uníssono, partir para a não-interpretação.


O teatro na época era visceral, engajado, sério. Havia os laboratórios, as improvisações grupais, que às vezes terminavam em suruba. Não era fácil ser ator de vanguarda. Ouvi uma vez uma história sensacional. Os personagens principais parece que eram o Stênio Garcia e o Roberto Bonfim. Nunca quis confirmar com nenhum deles, para não desfazer a fantasia. Nos ensaios experimentais coletivos, durante as improvisações mais lascivas, os dois belos jovens, escreveu não leu, eram atacados pela ala gay do elenco. Os dois decidiram bolar um plano: para não dar bandeira, cada um se colocava estrategicamente em lados opostos do palco; quando começava o exercício, deslizavam de corpo em corpo até se encontrar; e assim permaneciam, agarradinhos um ao outro, protegidos do resto do elenco.


Fauzi Arap, diretor, autor e ator extraordinário, alçado à posição de deus absoluto depois da interpretação que fez de um bêbado niilista na histórica montagem, de 1963, de Os Pequenos Burgueses, de Gorki, no Teatro Oficina, foi um que abandonou o barco. Dizem que ele teria desistido da profissão no meio de um espetáculo em que dividia o palco com Tônia Carrero. Na hora da deixa, teria parado em suspenso e dito: "Eu não sou ator! Eu não sou ator! Eu não sou ator!", e saiu porta afora.


Fui falar com o Fauzi e confirmei: a história é lenda. O que ele me disse é que desistiu da profissão porque descobriu como ganhar a vida de outra maneira, se expondo menos. Passou a escrever e a dirigir. Achava que teatro era uma experiência tão vertiginosa que ele não quis, ou não conseguiu, fazer dela um ganha-pão funcional. Fauzi conta que olhava para os outros, ouvia aquelas vozes, via aqueles gestos - e não se reconhecia como ator. Suava frio, era tímido, e sua interpretação vinha justamente do mal-estar que sentia ao fingir ser outro, da falta de intimidade com o ato de representar.


Para lidar com o desconforto, Fauzi desenvolveu o método da ação e da contra- ação. O personagem quer e não quer falar, quer e não quer representar. Ao cruzar a perna, costumava congelá-la no ar para manter o público em suspenso, à espera de que ela repousasse, ou não, sobre a outra perna. Dizem que a platéia o seguia como a serpente segue o encantador. Essa vontade e contravontade é o próprio princípio do teatro e está no intestino grosso do pânico de cena.


O diretor paulista Antunes Filho, num recente exercício com jovens dramaturgos, diante do blablablá de alguns textos, repetiu à exaustão: "Vocês não percebem?! O personagem não quer falar!!!". É preciso sentir nas vísceras o incômodo de se expor, o perigo do salto triplo. Se não fosse assim, circo não tinha graça.


São muitos os medos da profissão. O mais comum é o pavor de esquecer a fala. São casos e mais casos. O diretor e ator francês Louis Juvet - Madame Morineau viu - exigia que um ator da companhia ficasse parado, olhando-o nos olhos, enquanto ele repassava o texto minutos antes de entrar em cena. Marlon Brando distribuía dálias - colas com o texto escrito - pelo cenário, pelos atores, pelos figurantes, pelas árvores, postes, bancos, por onde quer que seus olhos passassem.


Contam-se nos dedos os atores que não desenvolveram nenhuma forma de mandinga antes de entrar em cena. Não fujo à regra. Tenho que pisar no palco com o pé direito, e não repito um sutiã ou calcinha que tenha me trazido má sorte. Minha mãe tem o estranho costume de segurar um prego torto na coxia. Muitos se benzem, ninguém fala o nome daquela tragédia de Shakespeare (digo baixinho: aquela do rei escocês) e "Merda!" é a saudação oficial para se desejar boa sorte.


Dizemos merda para vencer o medo com as armas da crendice. O teatro nasceu na Grécia e, como se sabe, os deuses gregos tinham uma relação passional com a espécie humana. Nós éramos pasto das suas disputas - tinham inveja, competiam, armavam arapucas para nós. De forma que os mortais tiveram que inventar artimanhas para passar incólumes por eles. Fala-se merda para desviar a atenção do pessoal do andar de cima, e assim evitar que eles se dêem conta dos nossos eventuais êxitos aqui na terra. É como o break a leg da tradição anglo-saxã, o "quebre uma perna". Tudo serve para baixar a expectativa do comediante. Sempre é recomendável botar os pés no picadeiro sem se esquecer que faz parte do jogo cair do cavalo.


Existe uma outra expressão em inglês - suspension of desbelief, a suspensão da descrença - que define o estado do espectador que aceita a ilusão criada em seu benefício. Um ator precisa que a platéia embarque na mentira, assim como uma criança precisa da outra criança para brincar de polícia e ladrão. É um fingimento mútuo: eu vou fingir que não sou eu e você vai fingir que acredita. Quando isso não acontece, os efeitos são dolorosos para o ator e tediosos (ou hilariantes) para a platéia.


Da primeira vez que eu pisei num palco profissionalmente, o abismo, a quarta parede, lá onde fica o público, era isso mesmo: um enorme buraco negro prestes a me sugar. Não conseguia ouvi-los, senti-los, nada. Eu fazia Cordélia, em Rei Lear, e passava mais de uma hora fora de cena. Comecei a ir em casa para jantar. Ou então ficava no fliperama ao lado do teatro. Na hora de pisar novamente no palco, nem eu mesma era capaz de me convencer que ali era a Cornualha. Passei a sofrer ataques de riso. Eu ria morta, ria em pé, ria parada, ria no agradecimento. Ria, ria, ria. O elenco me dava bronca, eu sentia angústia, mas na hora H era irresistível, caía na gargalhada. Foi um pânico de cena, um pânico de cena de ator inconseqüente.


Na estréia da Casa dos Budas Ditosos, anos depois da Cordélia risonha, eu já tinha aprendido que existe vida no buraco negro do público. Combinamos, eu e o Domingos de Oliveira, diretor da peça, acender a luz da platéia em alguns momentos do espetáculo. O teatro do Centro Cultural Banco do Brasil de São Paulo é pequeno, tem cento e poucos lugares. Na estréia, apareceram a crítica Bárbara Heliodora, o diretor Antunes Filho e o cineasta Hector Babenco, entre outros tantos. Eu tinha a sensação de que a platéia adernava o teatro para o lado de lá. Quando a luz acendeu pela primeira vez, percebi que um dos pontos de iluminação caía exatamente na cabeça do Babenco. Ela reluzia no meio da pequena multidão. Notei que Hector não estava muito entusiasmado. Imediatamente, me bateu a vergonha de representar. Eu dizia o texto, mas minha cabeça divagava: será que ele me acha ruim? Lembrei do Pixote, do filme do Fittipaldi, do Beijo da Mulher-Aranha, de uma péssima leitura que eu tinha feito do Carandiru. A luz continuou a acender e a apagar em cima da cabeça dele e, toda vez que isso acontecia, lá estava o Hector, cada vez mais entediado. No dia seguinte, a gente acabou com essa frescurada de ficar acendendo refletor na cara da platéia. São os horrores da estréia. Nenhum ator gosta de estréia, nem figurante. Numa montagem dirigida por Augusto Boal, no Arena, com o elenco amador do Teatro Oficina, um figurante, na véspera da estréia, se virou para o autor, o Zé Renato, e avisou: "Olha, amanhã eu não vou aparecer porque a gente fica muito nervoso na estréia, mas depois de amanhã pode contar comigo!".


Já nas primeiras três falas, você sabe se o público virá com você ou não. Na estréia da Electra com Glauce Rocha, em Porto Alegre, nos anos 70, o pano se abriu e entraram em cena Orestes e Pílades, devidamente paramentados de gregos. Orestes tinha uma voz fraca, e gritou agudo: "Píííílades! Ó, Píííílades!". O gerente do teatro olhou para o secretário e disse, desolado: "Lá se foi a temporada...".


O público se manifesta como um só organismo. Toda platéia sofre de humores, não importa se formada por cem pessoas, por mil ou por dez mil. Alguns espectadores têm o poder de contaminar teatros inteiros, para o bem ou para o mal. Sempre bato o olho em quem está contra. Acho que existe um campo gravitacional que puxa a tua atenção para quem não está gostando. E, é claro, há o público errado para a peça errada. Lembro de uma firma de construção civil, de São Paulo, que topou comemorar seu aniversário fechando uma sessão da Gaivota, de Tchecov, que eu fazia. A montagem não primava pelo ritmo fluente e, antes do espetáculo, serviram jantar acompanhado de vinho. No fim do primeiro ato, ouvimos os primeiros cochilos. Lá pelo meio do segundo, o público roncava sem cerimônia. No final, a gente via um acordando o outro para aplaudir.


Matheus Nachtergaele conta que quase perdeu o prumo durante uma apresentação do belíssimo (e vanguardíssimo) Jó. O público seguia a ação se deslocando pelas entranhas de um hospital abandonado de São Paulo. Depois de ser dependurado num pau-de-arara, Mateus era mergulhado numa banheira de sangue feito de chocolate e, em seguida, nu, caminhava em direção ao público narrando as provações da sua existência. Foi quando uma senhora se virou para a amiga e disse: "Satisfeita, Yolanda?!".


E é claro, existem as vaias, o ódio declarado da platéia.


Fui retumbantemente vaiada duas vezes. A primeira no estrangeiro, em alemão. Foi quando aprendi na prática o significado da palavra Scheisse, que é "merda" no sentido literal e não cênico. Mesmo com medo, não deixei de achar glorioso. Pareciam os bárbaros invadindo Roma.


A outra vez foi no histórico Tuca, o teatro da puc de São Paulo, palco de vaias bem mais importantes que a minha, como a de Caetano Veloso quando cantou "É Proibido Proibir". No meu caso, o burburinho começou porque o público quis o dinheiro de volta e a bilheteria estava fechada. Eles tinham toda a razão, nosso trabalho era muito ruim, uma versão de Don Juan pra lá de confusa. Bilheteria fechada, o pessoal achou que era o caso de entrar de novo no teatro para protestar. A platéia do Tuca tem 700 lugares, se estende a perder de vista. A vaia veio rolando lá do fundo, em onda, como uma cascata sonora. Era imponente, tinha beleza. Pensei: "Meu Deus, estou sendo vaiada no Tuca! Vou lembrar disso para o resto da vida!". Todo ator possui um lado masoquista. Os grandes fracassos têm importância para a gente. Não é gênero, não.


O vexame no teatro é contornável, a glória também, nada é permanente, tudo será repetido no dia seguinte. Existe o incômodo de estar presente nos momentos embaraçosos, mas isso passa. Cinema não passa. Tenho pavor de cinema. Cinema fica. Não é à toa que, entre a classe artística, o Canal Brasil é conhecido pelo nome de Quem Deve Treme. Uma cena emocionalmente complicada, no cinema, exige que o ator passe o dia botando os nervos no microondas. Vai filmar? Você esquenta, lembra das razões do personagem. Ah, não vai mais?! Vai fazer o contraplano antes? Aquele em que você está de costas. Você faz, já gasta um pouco do que represou. E quando termina: "Almoço!". Aí você enche a barriga, fica com sono porque acordou cedo, se distrai com uma conversa besta. "Vamos filmar!" Agora é com você: close do rosto. Cadê aquele sentimento delicado que te envolvia três horas antes? Foi-se com a espera, o tédio, o estrogonofe e o cafezinho. Você começa a fazer força para se lembrar de qualquer coisa tocante, rápido, vai rodar. O barulho do negativo, truuuuuuutruuuuu, o custo da película, da câmera, da equipe, a luz que está caindo, a locação que não pode ficar para a semana seguinte, o personagem a léguas de distância e você lá, frio, frio, frio feito uma geladeira.


Cinema é uma arte muito pouco confortável para o ator. É uma vez e pronto. Bom ou mau, aquele momento se congelará para sempre.


Recentemente recebi um convite que trouxe de volta a insegurança do início da minha carreira. Fui chamada para repetir, como atriz, o depoimento que uma mulher havia dado dias antes ao diretor. Não uma personagem de ficção, mas uma mulher de verdade, que contou sua história. Me mandaram a fita com o depoimento dela. Eu deveria assistir e encontrar uma maneira de interpretá-la, repetindo o que ela havia dito. A empreitada se revelou dificílima. Toda vez que eu via a fita original, tinha certeza de que, quando o filme ficasse pronto, alguém se levantaria da platéia para gritar: "Ela está mentindo!".


Wagner Moura me disse que, no Carandiru, os atores gostavam de pegar sol no pátio do presídio durante os intervalos das filmagens. O problema é que a outra ala da carceragem ainda estava ativada e os presos ficavam pendurados nas grades da cela, olhando os atores e gritando: "Tu é marginal porra nenhuma! Tu é viado! ô, viado!". Ninguém do elenco quis mais arejar lá fora, para não ter que lidar com a crítica feroz dos presos. Esse negócio de fazer gente que existe é uma coisa muito complicada.


Quando chegou o dia da minha filmagem, fui para lá nervosa, com a tal mulher no corpo, doida para me livrar dela. Na hora combinada, me sentei diante da câmera, o personagem em mim - mas a equipe continuou a se relacionar comigo, com a Nanda Torres, e aí me deu um curto, a boca secou, a mulher se escafedeu, sumiu. "A pior coisa que existe é você estar com a entidade no corpo e os outros insistirem em falar com o cavalo." A frase é do Amir Haddad, o mesmo que ensinou Pedro Cardoso a ficar calmo. Amir faz teatro de rua. Quando está atuando, fica perdido quando algum conhecido passa berrando: "Ô, Amir!".


Adoeci por causa dessa filmagem. Saí de lá direto para a cama. Só levantei uma semana depois, à base de Amoxil 875mg. Saí dali com raiva - raiva dessa profissão idiota. A experiência instalou uma dúvida incômoda na minha cabeça. Existe um paradoxo na vida do ator. Se você tiver êxito, provavelmente se tornará conhecido. Mas, uma vez transformada em figura pública, como convencer o resto do mundo que você é quem finge ser? O convite para fazer uma mulher real, do subúrbio do Rio, mexeu com os meus brios, aguçou a desconfiança de que, talvez, eu tenha perdido a capacidade de me perder em alguém. A profissão de ator não tem nada a ver com fama.


Quando se está em cena, seja no teatro, no cinema ou na televisão, você quer dominar os sentimentos, é um esforço mental gigantesco. Minha mãe diz sempre que só se deve falar depois de criar uma imagem na cabeça. Você fabrica uma alucinação e a projeta para o público. É um trabalho que acontece invisivelmente. É muito tênue, frágil, requer concentração. O pânico vem da autoconsciência, do julgamento de si mesmo, da expectativa, da censura interna e de qualquer ruído que lembre o quão inútil é a profissão.


Na antiga cidade grega de Pela, existe um mosaico com a imagem de Dionísio cavalgando as costas de um tigre. Para o deus do teatro, o palco, assim como o chão que pisamos em vida, é o dorso instável de uma fera. O medo é um sentimento inseparável do comediante. Se um ator, numa fração de segundo, se der conta de que quem está ali é ele, o mortal, e não o outro, o personagem imaterial, terá a alma exposta e correrá o risco de a qualquer momento ser abocanhado e cuspido pela besta imaginária. A peça em que Renata Sorrah mais tremeu, de bater os queixos antes de entrar em cena, foi um texto de Pirandello com o sugestivo título de Encontrar-se. No fundo, está tudo contido na primeira fala do primeiro ato de Hamlet.

"Quem está aí?"

quarta-feira, 19 de maio de 2010

ALÍNGUA DE KASPAR HAUSER E GEORG TRAKL


CANÇÃO DE KASPAR HAUSER
para Bessie Loos:
"Ele de fato amava o sol que descia a colina purpúreo, / Os caminhos da floresta, o canto do pássaro negro / E a alegria do verde. , / Sisuda era sua morada à sombra da árvore/ E puro o seu rosto. / Deus disse ao seu coração uma doce chama: / Homem!/ Tranqüilo, o seu passo encontrou a cidade à noite; / O lamento sombrio de sua boca: / Quero tomar-me cavaleiro. / Seguiram-no porém arbusto e animal, / Casa e jardim crepuscular de gente branca, / E procurava-o seu assassino. / Primavera, verão e belo o outono / Do justo, seu passo leve /Pelos quartos escuros de sonhadores.À noite ficava sozinho com sua estrela; / Viu que nevava em galhos nus,/ E a sombra do assassino no tenebroso vestíbulo da casa. / Prateada, tombou a cabeça do não-nascido./

(Georg Trakl / tradução: Cláudia Cavalcante)
Georg Trakl, poeta austríaco, que usa a palavra como metáfora nos processos de montagens poéticas, articulando-as entre si, utiliza-se de fragmentos de imagens isoladas e as justapõe em montagens metafóricas para destruir o verbal numa linguagem do indizível . Segundo Modesto Carone, Georg Trakl, em seu descontínuo poético, elabora um poema constituído de unidades do discurso à margem do próprio poema. Como se houvesse uma estrutura encobridora de uma semântica outra em substituição. Trakl organiza as metáforas, para aproximar-se de uma tentativa em nomear o não-dito.

Desta forma, tende à negação do que já se verbalizou no âmbito da linguagem, do calculado dizível. Ao quebrar com o convencionalismo - não na esfera sintática, como os concretistas, nem no automatismo dos surrealistas, nem na liberdade dos futuristas - na combinação alógica das metáforas e na justaposição não-linear, supõe a sua estilização estética para revelar a leitura de um mundo fragmentado e estilhaçado pela primeira guerra, bem como de um mundo interno despedaçado pela própria psicopatologia. Ele viveu em meio às drogas e ao suposto amor apaixonado pela irmã. George Trakl nasceu em Salzburg em 1887 e morreu em 1914, aos 27 anos de idade, num hospital psiquiátrico.

E o indizível apresenta-se num horizonte que vai à contra-mão do sentido. Portanto, em sua aparência supostamente normativa, com as frases combinadas gramaticalmente, Trakl revela um novo código que está para além de um enigma ou de um hermetismo que o obscurantiza. É através da poesia que ele fala para o Outro, “o não-nascido”.

Em seu poema CANÇÃO DE KASPAR HAUSER, Trakl aponta para um sujeito solitário em sua impossibilidade de fala, mas com significantes de gozo não-articulados sintaticamente.

Kaspar Hauser, um jovem que aos dezesseis anos surge em Nüremberg, Alemanha (1828), sem falar, tendo apenas o conhecimento elementar de algumas palavras, na medida em que vai absorvendo-as pelo imperativo da força social que o exige, dilui-se num processo mortificante para a sua subjetividade, tornando-se um objeto manipulável. Em contrapartida, essas mesmas palavras servem de instrumento para a sua própria defesa.

Ao perceber que possui um caminho que atravessa a própria língua, mordido por uma dor que surge face à constatação da incomunicabilidade, desta mudez social que o angustia e o leva ao balbucio, Kaspar Hauser transgride e questiona a sua ontologia, pois apresenta, em sua também curta vida social, de 1828 a 1833, um rápido processo cognitivo muito além das expectativas para um jovem que foi encontrado supostamente “recém-nascido” perdido numa praça em Nüremberg. Havia uma carta em suas mãos onde continha o seu nome e de que tinha sido descoberto na porta da casa de um suposto preceptor que o acolheu e o colocou em um porão escuro para escondê-lo das pessoas . Neste ele viveu por dezesseis anos sem acesso à luz, às pessoas, ao aprendizado comum iniciado às crianças.

Kaspar é um enigma, um saber inconsciente “não-nascido”, pois assumiu para si o não-todo da linguagem, nesta tentativa de sair do monólogo para um diálogo. Não nasceu para o mundo e foi assassinado aos 21 anos de idade. E Trakl ao falar de Kaspar identifica-se em sua incapacidade de fala, ambos comungam com este traço alingüístico, ou seja, para além da literariedade das raízes lingüísticas.

Kaspar Hauser não se comunica, ele tenta falar e a sua fruição respinga sobre o próprio gozo infantil ao balbuciar os primeiros sons fonéticos para articular o seu saber que não se sabe, portanto um enigma mesmo. Essa articulação das coisas é ontológica e implica uma vertiginosa interrogação sobre a origem da vida do ser. Sem sintaxe que o aprisione, é torturado pelos sentidos do Outro, pelas frases e sobre-frases que se dirigem impositivas a ele.

Esta linguagem impositiva, quer dizer, específica de uma convenção lingüística, ou mais oportunamente, científica, regimenta uma ordem que controla o sujeito pelas ideologias que a sustentam. Para Lacan “(...) a linguagem é apenas aquilo que o discurso científico elabora para dar conta do que chamo alíngua” . Nesta perspectiva o que resta a este sujeito de fala, de gozo, neste emaranhado desarticulado que se pretende organizado para enredá-lo e deixá-lo estático sem discurso?

E o resto é silêncio... ou a poesia.

Cristina Dantas
SET/06

sábado, 16 de agosto de 2008

"A FARSA, VÍSCERA DO TEATRO"

Kaspar Hauser foi encontrado, supostamente aos 16 anos, na Alemanha (1828), sem poder falar, depois de ter vivido num porão escuro e tendo apenas o conhecimento básico de algumas palavras. Não sabia ler nem escrever. Não sabia que existia uma vida colorida, que havia a luz do dia e outros seres-humanos. Ele era diferente porque sabia ouvir os menores ruídos, sabia perceber mais profundamente a vida através dos seus sentidos, que eram mais aguçados.

Começou a falar com as crianças da cidade, depois com juristas, filósofos, religiosos, etc, e foi tão rápido o seu aprendizado que conseguiu até questionar Deus. Foi uma sensação naquele lugar. As pessoas não entendiam aquele rapaz que veio de algum lugar desconhecido, aprendeu os costumes e as regras da sociedade, mas não conseguiu entender como os homens se submetiam a elas cegamente. Foi assassinado a facadas em 1833.

Até hoje ninguém sabe quem cometeu o crime. Ninguém sabe de onde ele veio e nem para onde ele foi. Ninguém sabe nada da vida. Ninguém sabe nada da morte. São os maiores enigmas da humanidade. Kaspar é um grande enigma, que lutou contra e a favor da língua até o fim dos seus dias.

Para cada ser de linguagem uma nova língua. Para cada ser de linguagem no teatro uma língua nova. O teatro é o palco onde se criam novos seres de linguagem. Nem a língua do homem ator, nem a língua do personagem do drama. É o lugar onde podemos ver outros seres, farseados pelo próprio ator, que é também um ser de linguagem. Uma morada de falsas almas, onde o ator é um verdadeiro farsante, aquele que faz farsa, burla, finge uma existência para um outro ver.

O título deste texto é uma citação do pensador espanhol Ortega y Gasset, o qual tenho uma grande identificação e, para ele, “é preciso que o ator deixe, durante um momento, de ser o homem real que conhecemos e é preciso também que Hamlet não seja efetivamente o homem real que foi.”

Nem o ator, nem Kaspar Hauser, mas um OUTRO;KASPAR,. Abriremos as cortinas do teatro para o nascimento deste outro ser. Deixaremos o palco nu para que este OUTRO;KASPAR, nasça e aprenda a ser como nós, ou diferente de nós, ou quais sejam as suas necessidades de “ser”.

Manter esta nova realidade é a grande dificuldade, pois se corre sempre o risco de pesar apenas um dos lados da balança. As outras realidades que deveriam se anular para dar lugar à nova, muitas vezes não dialogam entre si e querem operar de forma tendenciosa.

No teatro, a grande luta do ator é manter vivo e ativo este novo ser que se digladia entre a linguagem do homem da vida real, dita real, e a linguagem do texto. Consentir a farsa não é nada fácil. Consentir que não há uma só verdade não é nada fácil. Consentir a existência dos enigmas não é nada fácil. Consentir a imprevisibilidade da vida não é nada fácil. A ciência e a religião quiseram explicar até a exaustão quem era Kaspar Hauser. Mas não conseguiram. Na vida, dita real, de todos nós, somos todos farsantes e vivemos numa farsa que é a própria linguagem. Na vida, dita real, de todos nós, a nossa grande luta é ao mesmo tempo poder ser de linguagem e não encarcerar-se nela.
Cristina Dantas
outrokaspar@gmail.com

domingo, 10 de agosto de 2008

POESIA

CANÇÃO DE KASPAR HAUSER
para Bessie Loos:

Ele de fato amava o sol que descia a colina purpúreo,

Os caminhos da floresta, o canto do pássaro negro
E a alegria do verde.
Sisuda era sua morada à sombra da árvore
E puro o seu rosto.
Deus disse ao seu coração uma doce chama:
Homem!
Tranqüilo, o seu passo encontrou a cidade à noite;
O lamento sombrio de sua boca:
Quero tomar-me cavaleiro.
Seguiram-no porém arbusto e animal,
Casa e jardim crepuscular de gente branca,
E procurava-o seu assassino.
Primavera, verão e belo o outono
Do justo, seu passo leve
Pelos quartos escuros de sonhadores.
À noite ficava sozinho com sua estrela;
Viu que nevava em galhos nus,
E a sombra do assassino no tenebroso vestíbulo da casa.
Prateada, tombou a cabeça do não-nascido.

Georg Trakl / tradução: Cláudia Cavalcante

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

HIC JACET CASPARUS HAUSER, AENIGMA SUI TEMPORIS, IGNOTA NATIVITAS, OCCULTA MORS AQUI JAZ KASPAR HAUSER, ENIGMA DE SEU TEMPO. NASCIMENTO DESCONHECIDO, MORTE OCULTA

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

UM OUTRO;KASPAR,

O OUTRO;KASPAR, é um ser de ficção da ficção da linguagem e se apresentará passando pelo mesmo caminho que a criança passa ao aprender uma língua. Desde o balbucio infantil até a possibilidade de emitir palavras, frases e textos.

Apresentar o processo cognitivo da língua simultaneamente ao processo de elaboração deste ser de ficção da ficção é a tônica desta pesquisa.

Outro;Kaspar, metaforiza as línguas que se apresentam a cada peça a ser encenada, as diversas figuras que se apresentam a cada peça a ser encenada, os atores que são singulares em cada peça a ser encenada, pessoais em suas elaborações e únicos em cada palco onde pisa. Muitos Kaspares, muitos Outros Kaspares... Há inúmeras gramáticas e infidáveis criações... Há inúmeras invenções e infidáveis línguas...

Três seres de linguagem: o ator, o ser imaginário do texto teatral e a figura da cena, para uma gramática da criação, só para citar Georg Steiner em seu livro homônimo. Aventurar-se em reger a sua orquestra lingüística, faz do ator um maestro da sua própria música, da sua própria língua, do seu próprio ser ficcional. Maestro cuja batuta rasga o silêncio e entrega-se aos seus vazios, aos seus ditos inauditos, à morte dos vereditos.

Outro;Kaspar, é um ser de linguagem, como uma língua a ser apreendida, com todos os percalços ao longo do caminho...

Este projeto é uma oportunidade para demarcar a importância do aprendizado da língua como instrumento para a subjetivação do indivíduo no atual cenário da Educação no Brasil. Além de promover discussões e debates acerca do tema em questão.

Embora não interessa à pesquisa a verdadeira história de Kaspar Hauser é importante lembrar que ele é um ícone para suscitar uma discussão sobre a origem da língua, a sua repercussão sobre o indivíduo e suas relações com a linguagem. Um tema sedutor para escritores e cineastas, como Werner Herzog, cineasta alemão, o qual filmou O ENIGMA DE KASPAR HAUSER. Como também o poeta austríaco Georg Trakl que escreveu o poema CANÇÃO DE KASPAR HAUSER. Além de Peter Handke, escritor e dramaturgo austríaco que, sobretudo, influenciou esta pesquisa, com a peça KASPAR.
PESQUISANDO UM OUTRO;KASPAR,

Nesta pesquisa estudamos a língua portuguesa em toda a sua extensão e fizemos experimentações fonéticas, sintáticas e semânticas pautadas em sua própria estrutura normativa.

Descobrindo a nossa língua podemos perceber que ela é muito mais do que imaginamos...