sábado, 16 de agosto de 2008

"A FARSA, VÍSCERA DO TEATRO"

Kaspar Hauser foi encontrado, supostamente aos 16 anos, na Alemanha (1828), sem poder falar, depois de ter vivido num porão escuro e tendo apenas o conhecimento básico de algumas palavras. Não sabia ler nem escrever. Não sabia que existia uma vida colorida, que havia a luz do dia e outros seres-humanos. Ele era diferente porque sabia ouvir os menores ruídos, sabia perceber mais profundamente a vida através dos seus sentidos, que eram mais aguçados.

Começou a falar com as crianças da cidade, depois com juristas, filósofos, religiosos, etc, e foi tão rápido o seu aprendizado que conseguiu até questionar Deus. Foi uma sensação naquele lugar. As pessoas não entendiam aquele rapaz que veio de algum lugar desconhecido, aprendeu os costumes e as regras da sociedade, mas não conseguiu entender como os homens se submetiam a elas cegamente. Foi assassinado a facadas em 1833.

Até hoje ninguém sabe quem cometeu o crime. Ninguém sabe de onde ele veio e nem para onde ele foi. Ninguém sabe nada da vida. Ninguém sabe nada da morte. São os maiores enigmas da humanidade. Kaspar é um grande enigma, que lutou contra e a favor da língua até o fim dos seus dias.

Para cada ser de linguagem uma nova língua. Para cada ser de linguagem no teatro uma língua nova. O teatro é o palco onde se criam novos seres de linguagem. Nem a língua do homem ator, nem a língua do personagem do drama. É o lugar onde podemos ver outros seres, farseados pelo próprio ator, que é também um ser de linguagem. Uma morada de falsas almas, onde o ator é um verdadeiro farsante, aquele que faz farsa, burla, finge uma existência para um outro ver.

O título deste texto é uma citação do pensador espanhol Ortega y Gasset, o qual tenho uma grande identificação e, para ele, “é preciso que o ator deixe, durante um momento, de ser o homem real que conhecemos e é preciso também que Hamlet não seja efetivamente o homem real que foi.”

Nem o ator, nem Kaspar Hauser, mas um OUTRO;KASPAR,. Abriremos as cortinas do teatro para o nascimento deste outro ser. Deixaremos o palco nu para que este OUTRO;KASPAR, nasça e aprenda a ser como nós, ou diferente de nós, ou quais sejam as suas necessidades de “ser”.

Manter esta nova realidade é a grande dificuldade, pois se corre sempre o risco de pesar apenas um dos lados da balança. As outras realidades que deveriam se anular para dar lugar à nova, muitas vezes não dialogam entre si e querem operar de forma tendenciosa.

No teatro, a grande luta do ator é manter vivo e ativo este novo ser que se digladia entre a linguagem do homem da vida real, dita real, e a linguagem do texto. Consentir a farsa não é nada fácil. Consentir que não há uma só verdade não é nada fácil. Consentir a existência dos enigmas não é nada fácil. Consentir a imprevisibilidade da vida não é nada fácil. A ciência e a religião quiseram explicar até a exaustão quem era Kaspar Hauser. Mas não conseguiram. Na vida, dita real, de todos nós, somos todos farsantes e vivemos numa farsa que é a própria linguagem. Na vida, dita real, de todos nós, a nossa grande luta é ao mesmo tempo poder ser de linguagem e não encarcerar-se nela.
Cristina Dantas
outrokaspar@gmail.com

domingo, 10 de agosto de 2008

POESIA

CANÇÃO DE KASPAR HAUSER
para Bessie Loos:

Ele de fato amava o sol que descia a colina purpúreo,

Os caminhos da floresta, o canto do pássaro negro
E a alegria do verde.
Sisuda era sua morada à sombra da árvore
E puro o seu rosto.
Deus disse ao seu coração uma doce chama:
Homem!
Tranqüilo, o seu passo encontrou a cidade à noite;
O lamento sombrio de sua boca:
Quero tomar-me cavaleiro.
Seguiram-no porém arbusto e animal,
Casa e jardim crepuscular de gente branca,
E procurava-o seu assassino.
Primavera, verão e belo o outono
Do justo, seu passo leve
Pelos quartos escuros de sonhadores.
À noite ficava sozinho com sua estrela;
Viu que nevava em galhos nus,
E a sombra do assassino no tenebroso vestíbulo da casa.
Prateada, tombou a cabeça do não-nascido.

Georg Trakl / tradução: Cláudia Cavalcante

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

HIC JACET CASPARUS HAUSER, AENIGMA SUI TEMPORIS, IGNOTA NATIVITAS, OCCULTA MORS AQUI JAZ KASPAR HAUSER, ENIGMA DE SEU TEMPO. NASCIMENTO DESCONHECIDO, MORTE OCULTA

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

UM OUTRO;KASPAR,

O OUTRO;KASPAR, é um ser de ficção da ficção da linguagem e se apresentará passando pelo mesmo caminho que a criança passa ao aprender uma língua. Desde o balbucio infantil até a possibilidade de emitir palavras, frases e textos.

Apresentar o processo cognitivo da língua simultaneamente ao processo de elaboração deste ser de ficção da ficção é a tônica desta pesquisa.

Outro;Kaspar, metaforiza as línguas que se apresentam a cada peça a ser encenada, as diversas figuras que se apresentam a cada peça a ser encenada, os atores que são singulares em cada peça a ser encenada, pessoais em suas elaborações e únicos em cada palco onde pisa. Muitos Kaspares, muitos Outros Kaspares... Há inúmeras gramáticas e infidáveis criações... Há inúmeras invenções e infidáveis línguas...

Três seres de linguagem: o ator, o ser imaginário do texto teatral e a figura da cena, para uma gramática da criação, só para citar Georg Steiner em seu livro homônimo. Aventurar-se em reger a sua orquestra lingüística, faz do ator um maestro da sua própria música, da sua própria língua, do seu próprio ser ficcional. Maestro cuja batuta rasga o silêncio e entrega-se aos seus vazios, aos seus ditos inauditos, à morte dos vereditos.

Outro;Kaspar, é um ser de linguagem, como uma língua a ser apreendida, com todos os percalços ao longo do caminho...

Este projeto é uma oportunidade para demarcar a importância do aprendizado da língua como instrumento para a subjetivação do indivíduo no atual cenário da Educação no Brasil. Além de promover discussões e debates acerca do tema em questão.

Embora não interessa à pesquisa a verdadeira história de Kaspar Hauser é importante lembrar que ele é um ícone para suscitar uma discussão sobre a origem da língua, a sua repercussão sobre o indivíduo e suas relações com a linguagem. Um tema sedutor para escritores e cineastas, como Werner Herzog, cineasta alemão, o qual filmou O ENIGMA DE KASPAR HAUSER. Como também o poeta austríaco Georg Trakl que escreveu o poema CANÇÃO DE KASPAR HAUSER. Além de Peter Handke, escritor e dramaturgo austríaco que, sobretudo, influenciou esta pesquisa, com a peça KASPAR.
PESQUISANDO UM OUTRO;KASPAR,

Nesta pesquisa estudamos a língua portuguesa em toda a sua extensão e fizemos experimentações fonéticas, sintáticas e semânticas pautadas em sua própria estrutura normativa.

Descobrindo a nossa língua podemos perceber que ela é muito mais do que imaginamos...