Kaspar Hauser foi encontrado, supostamente aos 16 anos, na Alemanha (1828), sem poder falar, depois de ter vivido num porão escuro e tendo apenas o conhecimento básico de algumas palavras. Não sabia ler nem escrever. Não sabia que existia uma vida colorida, que havia a luz do dia e outros seres-humanos. Ele era diferente porque sabia ouvir os menores ruídos, sabia perceber mais profundamente a vida através dos seus sentidos, que eram mais aguçados.Começou a falar com as crianças da cidade, depois com juristas, filósofos, religiosos, etc, e foi tão rápido o seu aprendizado que conseguiu até questionar Deus. Foi uma sensação naquele lugar. As pessoas não entendiam aquele rapaz que veio de algum lugar desconhecido, aprendeu os costumes e as regras da sociedade, mas não conseguiu entender como os homens se submetiam a elas cegamente. Foi assassinado a facadas em 1833.
Até hoje ninguém sabe quem cometeu o crime. Ninguém sabe de onde ele veio e nem para onde ele foi. Ninguém sabe nada da vida. Ninguém sabe nada da morte. São os maiores enigmas da humanidade. Kaspar é um grande enigma, que lutou contra e a favor da língua até o fim dos seus dias.
Para cada ser de linguagem uma nova língua. Para cada ser de linguagem no teatro uma língua nova. O teatro é o palco onde se criam novos seres de linguagem. Nem a língua do homem ator, nem a língua do personagem do drama. É o lugar onde podemos ver outros seres, farseados pelo próprio ator, que é também um ser de linguagem. Uma morada de falsas almas, onde o ator é um verdadeiro farsante, aquele que faz farsa, burla, finge uma existência para um outro ver.
O título deste texto é uma citação do pensador espanhol Ortega y Gasset, o qual tenho uma grande identificação e, para ele, “é preciso que o ator deixe, durante um momento, de ser o homem real que conhecemos e é preciso também que Hamlet não seja efetivamente o homem real que foi.”
Nem o ator, nem Kaspar Hauser, mas um OUTRO;KASPAR,. Abriremos as cortinas do teatro para o nascimento deste outro ser. Deixaremos o palco nu para que este OUTRO;KASPAR, nasça e aprenda a ser como nós, ou diferente de nós, ou quais sejam as suas necessidades de “ser”.
Manter esta nova realidade é a grande dificuldade, pois se corre sempre o risco de pesar apenas um dos lados da balança. As outras realidades que deveriam se anular para dar lugar à nova, muitas vezes não dialogam entre si e querem operar de forma tendenciosa.
No teatro, a grande luta do ator é manter vivo e ativo este novo ser que se digladia entre a linguagem do homem da vida real, dita real, e a linguagem do texto. Consentir a farsa não é nada fácil. Consentir que não há uma só verdade não é nada fácil. Consentir a existência dos enigmas não é nada fácil. Consentir a imprevisibilidade da vida não é nada fácil. A ciência e a religião quiseram explicar até a exaustão quem era Kaspar Hauser. Mas não conseguiram. Na vida, dita real, de todos nós, somos todos farsantes e vivemos numa farsa que é a própria linguagem. Na vida, dita real, de todos nós, a nossa grande luta é ao mesmo tempo poder ser de linguagem e não encarcerar-se nela.